terça-feira, 17 de março de 2020

Bolsonaro, angelus novus e a Matrix

Angelus Novus, de Paul Klee.  Na gravura, o anjo da história se desloca para frente, mas com os olhos voltados para trás. De interpretação, não se pode avançar na historia sem levar em conta o passado.
Ao aparente clichê se adiciona a leitura da oitava tese sobre a história de Walter Benjamin, "A tradição dos oprimidos nos ensina que o “estado de exceção” em que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade".
Particularizando à caótica realidade brasileira pós 2013, a exceção como paradigma emergiu da rasa vala em que fora enterrada. Ressicitando em meio a um povo amorfo e entusiasta à anomia, encontrou terreno fértil para sua sobrevida.
A violência institucional, o voluntarismo político são inerentes ao exercício do poder. A Modernidade, como bem sabemos, trazendo a promessa da racionalização do poder político e da garantia de direitos fundamentais, foi ela própria fagocitada pelo arbítrio, que passou a ser exercido de uma maneira mais fina e, por que não dizer?, elegante.
Ainda violência, afinal.
O estado de exceção se aplica contra a normalidade, normalidade essa que não realizada para além dos volumes dos contratualistas.
No Brasil,  o império político-democrático que resultou pela primeira vez em conquistas sociais efetivas, ruiu frente às perdas especulativas, dando vez a um acordo generalizado, inclusive com o STF, que busca desregular completamente as possibilidades de controle social do patrimônio público.
Eis o passado recente de exceção ao qual o anjo da história observa. 
Nesse percurso Bolsonaro é eleito Presidente sem apresentar qualquer proposta séria para o país, impondo seu fetiche sádico aos quem julga como o outro.
Um governo sem seriedade, sobrevivendo com constantes crises por ele mesmo provocadas. A democracia dança, de sombrinha, em ima corda bamba sustentada pelos fiadores do Presidente.
Não se vislumbra qualquer mínimo sucesso material na gestão bolsonarista, restando ao povo se contentar com o sobejo dessa batalha.
Fala-se em impeachment, mas com o cadáver ressuscitado ascensão em sua forma, sua morte me parece impossível. 
Ao analisar a trilogia Matrix, Slavoj Žižek, após apontar as inúmeras inconsistências nos filmes, aponta a uma única  interpretação razoável à obra: o da impossibilidade de destruição das máquinas, mas, quando muito, uma negociação que propiciará um adiamento a mais uma investida de controle e violência. 
Uma prorrogação com a Matrix brasileira - ou com suas "forças e interesses contra o povo" - sucedeu após o suicídio de Vargas que, dada a comoção nacional, postergou um golpe já em curso. A conta veio com o golpe de 1964, e mais uma negociação ocorreu em torno da Constituição de 1988.
Talvez sem consciência, a eleição de Bolsonaro cobrou novamente a conta.
Não se sabe da competência ou da destreza do Presidente em liderar mais um golpe, ou permitir que outros o deflafrem. Mas existir essa possibilidade é algo ja real.
Aos que resistem, talvez não haja possibilidade de negociação e, casa o haja, nada mais será do que uma negociação, que novamente irá enterrar um cadáver já tantas vezes ressuscitado. 
A outra possibilidade é a de aniquilar as máquinas, libertar o povo e gozarmos o paraíso perdido.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Crônica de uma cidade

-Uma ossada humana. Dizia quando interrompeu a história para a prova do vinho que o garçom acabara de servir na sua taça. Uma ossada humana, em um saco plástico preto.

-E o que você fez?

-Você me conhece, sabe que eu sou legalista. Fiz o que determina nosso Código de Ética: entreguei às autoridades.

-E lá na delegacia, como foi?

-Foi tranquilo. Por acaso estava lá o prefeito, que gastou um bom tempo tentando justificar o atraso na assinatura da lei da coleta seletiva. Disse que, para implementá-la, faria necessário uma reestruturação urbanística em quase toda a cidade. Mas afirmou que o recurso já está separado. Vamos ver.

-Não consigo encontrar essas notas de petróleo nos Rieslings. Só uma acidez alta.

-Você tem que treinar o paladar e o olfato. O importante é não desistir. O mundo da gastronomia é fascinante, e você que está entrando agora nesse mundo tem que persistir, estudar e principalmente beber.

-Você tem alguma suspeita sobre a ossada?

-Não. Nem me interessa. Minha função se resume a recolher o lixo da cidade. Esses incidentes não são da minha alçada e procuro não me estressar mais do que com o trabalho. Cada um com sua função. 

-De fato, se deixarmos nos envolver por tudo o que vemos no dia a dia a vida seria mais difícil. 

-Por isso esses jantares entre amigos são importantes. Meu dinheiro serve para isso, para viver, conversar com os amigos, bons vinhos e boa comida.

Há quarenta anos, na campanha para prefeito da cidade, Jânio foi o candidato vencedor. Empresário dono de boa parte do comércio e indústria da cidade, tratava seus empregados com o mínimo que a lei determinava, com o máximo de trabalho possível e sem qualquer afeição à polidez com quem quer que fosse.
Ao arrepio da lei, mantinha um mercado nas dependências de suas fábricas, vendendo aos funcionários os itens básicos para sua existência com preços inflacionários, já retendo boa parte dos seus salários. Não aceitava nova contratação sem que o candidato levasse certidão negativa da Justiça trabalhista.
Nos turnos do trabalho, fiscalizava pessoalmente a produção. Proibiu a saída para o cigarro dos fumantes, diminuiu para dois o número de copos d'água que cada um poderia beber, e limitou a duas idas ao banheiro por turno, com exceção das mulheres que estivessem menstruadas, que poderiam ir três vezes.
Tal jeito de ser e tratar seus concidadãos, só em anedotas ofensivas que alguém poderia afirmar que Jânio teria o carisma minimamente necessário para concorrer a um cargo público. Mas Jânio, dispensando maiores racionalismos, e com irrestrito apoio da família, decidiu que seria o futuro prefeito da cidade. E isso porque, por mais que o dinheiro e a posição chefe de metade da cidade o destacasse de todos os outros, sentia falta da aura messiânica que o poder confere. Somou-se, também, o desejo de se vingar dos poucos que o afrontaram, principalmente advogados e juízes, que dilapidaram parte de sua fortuna com condenações volumosas que ocorriam quando algum dos seus empregados buscava a justiça para reparar algumas das tantas ilegalidades que comete diariamente nas suas fábricas e comércios. 
Fez a política que acreditava, comprando quem estivesse disposto a ser vendido. Usou do seu dinheiro como nunca antes. Os comícios eram festas enormes. Obrigava seus funcionários a participarem de todos os atos da campanha. E foi em um desses comícios que abraçou pela primeira vez seus empregados. Abraçou, beijou e chorou várias vezes, vociferando que, sem eles, ele não seria nada, e que sua gratidão seria eterna. Os poucos que se deixavam levar pela comoção do momento, também choravam.
Mas em uma dessas extravagâncias, entrou madrugada adentro em um comício mais acalorado. E ao desrespeitar mais uma lei, dessa vez a eleitoral, foi multado pela justiça. A indignação interrompeu seu entusiasmo e trouxe à sua memória de volta o rancor longevo contra o que chamava de libertinagens da Justiça. 
Já no próximo comício, ao tomar o microfone, fez a promessa de campanha mais ousada já feita. Na ânsia de vingar imediatamente as limitações jurisdicionais que sofrera, em geral, e os juízes e advogados, em particular, prometeu que, se eleito fosse, os salários dos garis seriam maiores do que os salários dos juízes.
A promessa poderia ser mais um dentre as inúmeras que fez, muitas das quais em contradições entre si e com a Constituição. 
Jânio foi eleito. 
E seus primeiros meses na prefeitura foram uma continuação da campanha. Festas, impropérios contra adversários já derrotados, mas agora já sem os abraços, beijos e choros.
Depois de trocar todos os servidores públicos que pôde por laranjas ligados à sua família, a rotina da administração parecia estar construída para passar os anos de seu mandato sem sobressaltos. E assim o seria se não tivesse recebido em seu gabinete mais um oficial de justiça o intimando em um outro processo judicial, dessa vez, por atos de improbidade ligado a nepotismo, irregularidades em licitações e peculato. 
A raiva sequer chegou a completar o ciclo que deixa seu rosto vermelho e sua respiração ofegante, lembrou da promessa que havia feito.
Ainda com o mandado na mão, chamou o seu Chefe de Gabinete e determinou:

- Aumente o salário dos garis.

- Em quantos porcento?

- Quatro mil.

- Aumentar para quatro mil?

- Quatro mil porcento.

- Isso vai comprometer toda a folha de pagamentos, prefeito.

- Foda-se.

Tornar os garis mais ricos que os juízes, para Jânio, era o que de mais cruel poderia fazer contra a classe que tanto odiava. Pois acreditava que as condenações que sofria eram resultado da inveja dos juízes por sua fortuna.

-Pois agora vai ter mais gente mais rica que esses juízes. 

Passados quarenta anos do cumprimento da promessa do prefeito Jânio, observou-se na cidade uma verdadeira mudança de costumes.
Ricos, os garis passaram a gozar da maior respeitabilidade na cidade. As casas, por iniciativa própria, passaram a tratar o lixo com a responsabilidade sustentável nunca antes vista no país.
O pudor de que tão nobres servidores estivessem em contato com seus dejetos, fez com que toda a cidade separasse seus lixos por tipo, acomodando todos em sacos plásticos fechados hermeticamente e inseridos em caixas de papelão lacradas, deixadas organizadas na frente das casas.
As provas de concursos para gari eram realizadas no ginásio da cidade, com candidatos de todo o país. No último certame, com 50 vagas, inscreveram-se 80 mil candidatos. Apesar de exigir nível médio, a maior parte dos inscritos era de bacharéis, mestres e doutores das mais diversas áreas. Muitos com formação no exterior.
Até os costumes mudaram. Unhas sujas viraram moda, e tanto homens e mulheres pintavam a ponta das unhas de preto para, talvez, passarem por garis. Por mais assépticos que os lixos fossem, os desagradáveis aromas que se acumulavam no caminhão impregnavam nos servidores, sendo esse o aroma mais desejado entre homens e mulheres que procuravam namoro. Era natural ver jovens correndo em volta do quarteirão antes de irem para uma festa, tentando adquirir ao menos o suor e seu aroma.
Uma legislação específica para a categoria foi criada na Câmara Municipal, com direitos e obrigações para os profissionais, e também um Código de Ética.
Criou-se da mesma forma uma Associação para cuidar dos interesses dos garis, sempre emitindo notas de apoio aos servidores quando eventualmente cometiam desvios de conduta.

-Sobremesa?

-O tiramisu é com mascarpone ou com imitação?

-Mascarpone, senhor.

-Então vou querer um. E um calvados.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Lei e moral

No início do ano, com todos os decibéis possíveis e custeado com recursos públicos, os seguintes versos de Wesley Safadão foram cantados na maior festa da cidade:
"Sabe por que eu não te largo? / Cê faz gostoso e ainda põe leite condensado / Sabe por que você não me deixa? / É que eu misturo romance com safadeza".
Fugindo da tediosa hipocrisia de tentar impor uma moralidade ou gosto estético, e também escapando da importante discussão sobre o papel do incentivo cultural público, o fato é que, sim, pode-se gostar do estilo musical que se quiser, e não cabe ao poder público interferir na liberdade de expressão, estética e cultural dos cidadãos.
Pois é exatamente a liberdade de expressão que a Prefeitura Municipal de Guarabira elegeu como inimigo nos último dias, ao publicar lei que proíbe a realização de atos culturais que "desrespeitem símbolos religiosos ou promovam a pornografia" em espaços públicos. Mais vago que isso, impossível.
Além da clara inconstitucionalidade, essa lei parece ter alvo certo: a demagogia rasteira e inculta que parece ter se instalado no país.
Repita-se: gosto não se impõe, mas também não se proíbe. As aversões, predileções ou desconhecimento sobre determinada forma de expressão cultural devem ter a garantia de sua manifestação. O contrário é autoritarismo, falta de cultura ou moralização do discurso político.
De um lado, pela lei publicada, deve-se retirar imediatamente das bibliotecas públicas do município clássicos da literatura, como Satiricon e 120 de Sodoma, ou mesmo o brasileiro Casa dos Budas Ditosos, por tratarem de temas sexuais. De outro lado, deve-se proibir os mais importantes filmes do século passado, tal como O Sétimo Selo, de Ingmar Bergam ou Deus e o Diabo na Terra do Sol, do brasileiro Glauber Rocha, por discutirem questões ligadas a religiosidade. A tela A Origem do Mundo, de Coubert, nunca poderá adentrar os museus municipais.
A moralização que se quer praticar dificilmente vai tomar providências contra discursos contra o candomblé, umbanda ou outras religiões de matriz africana, além de não se ater ao desrespeito que podem sofrer os ateus ou que não tenham fé religiosa.
Ao poder público deve recair a obrigação de propiciar que todas as formas de pensamento se manifestem, respeitando a Constituição e as liberdades individuais. O que sobrar a isso é autoritarismo.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Patriotas: leiam!

Em um precário quarto improvisado nas trincheiras do teatro de guerra, o Coronal Dax, em uma discussão com seu superior, o General Mireau, vocifera a seguinte frase: "O patriotismo é o último refúgio de um canalha".
A frase é de autoria do poeta inglês Samuel Johnson. A cena acima descrita, do filme Paths of Glory, de Stanley Kubrick.
O aparente desacato à nação que tal frase pode aparentar aos desavisados ilustra bem a sintomática fragilidade dos alicerces políticos em que vivemos. No entanto, ao poeta inglês, serviu para denunciar os que, no século XVIII, buscavam justificar toda sorte de atrocidades sob o abstrato manto da nação acima de tudo. À personagem do filme (e também do livro homônimo), serviu como confronto ao comando de uma iníqua guerra, que posteriormente serviu para executar por fuzilamento soldados que se negaram cumprir a ordem de um ataque suicida.
Se antes as mais bárbaras atitudes tiveram no pálio da religiosidade sua proteção, a infalibilidade dos dogmas eclesiásticos passou a ter na signos pátrios sua irracionalidade instrumentalizada, seja por má fé ou por ingenuidade, numa schimittiana demonstração da confusão entre teologia e política.
Em que pese, no entanto, a relativização da Modernidade sob a perspectiva crítica, claro fica que menos o conteúdo que a forma de sua concretização incomoda seus adeptos, de modo que a abertura conceitual de termos como Democracia, Direitos Fundamentais, Autodeterminação dos povos, Liberdade, Igualdade, restam como projetos que contrapõem o voluntarismo déspota. Contraposição incompleta, dirão alguns.
O apego ao nacionalismo cumpre bem o papel de confluir a um projeto um grande número de pessoas. E ao personificar tal sentimento, o autoproclamado representante na terra da Mãe Pátria encarna a imperial prerrogativa da irresponsabilidade. Negar seu projeto é negar a nação; questionar seus métodos é questionar o futuro alvissareiro do país.
Mais ainda, para ser absoluto, o messias político esculpe um inimigo comum. Inimigo esse imaterial, onipresente e apocalíptico. Por não estar em lugar algum, o inimigo passa a estar em todos os lugares. Eis o cenário da irracionalidade que leva à estabilização de um antagonismo perverso que põe, de um lado, os que se acham salvadores de todos e, de outro lado, os que não merecem a qualificação política de cidadãos. É nesse sentido que termos como "cidadão de bem", "vagabundo" e seus congêneres se instalam em um imaginário comum, pré-rotulando os que, por motivos inclusive estéticos, se adaptam em um ou outro grupo.
O Brasil aprofundou na última década um antagonismo social irreconciliável em médio prazo. O silêncio servil dos que ostentam a bandeira nacional a discursos que apregoam violência, divisão, exclusão, torturas e morte saiu das alcovas. Aos demais, resta a solitária tarefa de se insurgir, tal como redigido por Ênio Silveira ao Marechal Castello Branco em carta aberta na Revista Civilização Brasileira, em 1965: "O chamado 'delito de opinião' sr. Marechal, é o crime que devemos todos praticar diariamente, sejam quais forem os riscos. Se deixarmos de ser 'criminosos', nesse campo, seremos inocentes... e carneiros".

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Um texto desnecessário

A política é, sim, inegavelmente, um ambiente propício para a exteriorização e amplificação dos vícios humanos. Por séculos, foi na concentração despótica e na divinização pessoal que fazia a soberania ser confundida com um único sujeito. Esse soberano não era responsável pelos seus atos, de modo que sua vontade tinha em seu irrestrito alcance a vingança como meio de seu exercício, sem qualquer espaço para qualquer questionamento.
Mas a inquietude da razão humana ousou questionar. E daí o Estado passou a ser tido não como um fim, mas como o meio onde as pessoas poderiam exerceu suas liberdades sem que qualquer um a ameaçasse, tendo como limite a própria liberdade alheia. Daí, também, frente às inúmeras debilidades na vida dos que durantes esses séculos obscuros foram relegados à penúria de uma vida sem o mínimo de qualidade, que também se impôs ao Estado o dever de prover os bens básicos para todos, de modo que, dessa forma, todos os homens e mulheres vivessem em solidariedade. 
Liberdade, Igualdade, Fraternidade, três gerações na evolução dos direitos fundamentais, um mundo com menos diferenças e sofrimento.
A política passou a ser também o ambiente em que a virtude humana poderia ser exercida.
Quem nega essa possibilidade, nega esses séculos de evolução, nega também essa própria possibilidade de que todos sejam, como o são materialmente, iguais.
Negar o Estado Democrático de Direito é negar a beleza ímpar e o triunfo da razão frente à ignorância e à violência.
Não deixemos que a indignação nos torne piores, pois sempre há uma saída para a frente.
Neguemos sempre a violência como meio, abdiquemos sempre do canto das sereias de respostas fáceis para problemas difíceis pois, se assim não o fizemos, seremos nós os condenados a penar no porão da história e no calabouço da nossa consciência.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Um relato

A cabeça pendia para trás, sem força. Apenas as pálpebras indicavam que ainda estava vivo, tremendo involuntariamente e mantendo-se forçosamente abertas, recobrindo uns olhos fixos em lugar algum. A boca se mantinha aberta, em parte para entrar mais ar nos pulmões, em parte por ter ficado muito tempo gritando frente à dor que por horas suportara. Quem visse o corpo nu ensaguentado no chão, notava que as canelas entreabertas pareciam ser a parte do corpo mais frágil do homem completamente anestesiado do sofrimento.
A uretra fora queimada por um ferro quente introduzido no seu pênis, vedando-a de forma irreversível. Do seu ânus escorria uma fina linha de sangue que, junto com fezes, criara uma pequena poça negra ao seu lado. O odor não incomodava nem a ele nem aos outros dois homens que, sentados, fumavam cada um um cigarro, exaustos, suados, depois de terem concluído um ritual que, de tantas vezes repetido, executavam de forma burocrática.
Em uma cadeira vazia estavam suas roupas e uma toca preta feita de um tecido grosso.
Sequer sentira a frieza do estetoscópio sendo pressionado em diferentes locais do seu peito. Também não resistiu quando seu braço fora levantado para auferir sua pressão. A sessão fora bem executada, não iria morrer naquele dia. O padre fora dispensado àquela noite. Desligaram o aparelho de som que tocava a ópera O Anel de Nibelungo.

Sobre homossexualidade



Tenho um filho com pouco mais de um ano. Não tenho como saber nem como influenciar sua futura sexualidade. Não depende de mim nem de nada que esteja ao meu alcance.

O que eu sei, o que eu tenho certeza, é que se ele for homossexual, bissexual, transexual ou qualquer outra orientação que não hetero, ele irá sofrer muito. Irá sofrer na escola, na universidade, no trabalho, na rua e talvez com parte da família. Sei também que terá muita dificuldade em ter amigos, em conseguir emprego, em ser aceito em grupos.

Ao mesmo tempo, no entanto, tenho outra grande certeza: ele nunca irá sofrer em casa devido à sua sexualidade. Ele iria chorar muito, mas seria eu quem iria enxugar suas lágrimas; ele iria ficar muito triste muitas vezes, mas comigo ele teria o apoio e o amor incondicionais que um pai, no meu entender, deve dar a seu filho.

Isso nunca será uma questão relevante para mim, e o farei entender que isso não é uma questão relevante em qualquer pessoa.

Da mesma forma irei educá-lo para respeitar as diferenças. Quero que ele compreenda que não há hierarquia material entre pessoas. Na literatura e no exemplo ele terá acesso à compreensão ampla de que o respeito é dever para com todos, não importando qualquer outro requisito.

Não quero que ele sofra nem que faça sofrer.

É isso que farei, é assim que irei educá-lo, mas sei que, lá fora, muitos, por pura ignorância e amoralidade, têm a violência e a discriminação como modo de pensar e agir. 

Convicto de que a educação é a única forma de emancipação da humanidade, durante todos os meus dias irei me esforçar para ser um exemplo, e, assim, ele também seja um exemplo e uma peça transformadora nesse mundo.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Meu testamento

Livre de qualquer induzimento ou coação, resolvo lavrar o presente testamento no qual exaro minha vontade, pela forma e maneira seguinte:

O que eu queria, meu filho, era te falar o quanto eu sorri quando te vi chorar pela primeira vez. Singular paradoxo de uma alegria causada por um grito de agonia. Mas é difícil ignorar a verdadeira agonia que tantos gritam hoje, causada pela omissão ou ação criminosa dos que empreendem forças para privar de liberdade, comida e felicidade tantos e tantos que, iguais a ti no momento do nascimento, se diferenciam por já estarem condenados a uma vida de sofrimentos e luta.

E por falar nisso, meu filho, queria muito te falar sobre as lágrimas que verti pelos teus sorrisos quando fixavas teus olhos no meu rosto, deitado no meu braço. Mas infelizmente sou obrigado a te falar que o sorriso é privilégio, que o máximo que se permite a muitos são intervalos de sofrimento, enquanto outros gargalham à custa da exploração dos que nascerão e morrerão inocentes.

O que eu queria mesmo, meu filho, era te dizer que o mundo é perfeito, que as pessoas são iguais em dignidade, mas você mesmo presenciará que a cor da pele, o sexo, a orientação sexual, a identidade de gênero, a condição social, a religiosidade e tantos outros fatores condicionam a forma que uma pessoa é tratada.

Queria muito te falar que, apesar das atrocidades que cometemos no passado, estamos progredindo, e tudo aquilo que outrora fora proclamado nos ventos da história está cada vez mais perto de se concretizar, mas o que vemos é um retrocesso, meu filho, um antagonismo gratuito, um ódio cada vez mais se agigantando, de modo que a esperança, meu pequeno, tem sobrevivido apenas nos corações dos que ousam sonhar.

Queria ser para você, meu filho, o ser perfeito que te inspiraria, o arquétipo do ser sem defeito, mas não, não mesmo, meu filho, quero te privar de me ver sofrer, de me ver chorar, pois eu fracassei e irei fracassar muitas vezes, e quero que você veja em mim, seu pai, um ser humano falho, muito falho, mas eterno cultivador do desejo do progresso e de evolução, pois apenas assim, reconhecendo os erros, somos capazes de mudarmos a nós e ao nosso meio.
Não, não quero mesmo, meu filho, chorar ou sofrer escondido de ti, quero, ao contrário, chorar abraçado a ti em qualquer momento que a dor me arrebatar, pois pior que sofrer é sofrer sozinho, e em ti quero encontrar meu refúgio. E da mesma forma, meu filho, não se acanhe em chorar junto comigo, pois se em alguém na sua vida você pode confiar, saiba que esse alguém é seu pai.

Muito provavelmente, meu filho, em algum momento da sua vida esse mundo te deixará abandonado em um turbilhão de dúvidas e incertezas, e talvez seja eu o teu repositório da indignação ou incompreensão. Mas não me importo, meu filho, que descontes em mim tua ira, pois saberei que a inconformidade só se insurge contra os que amamos, pois neles é que esperamos as respostas que não temos. Ser pai é ser paciente, e da mesma forma que sei que você se esforçará em compreender o mundo, eu me esforçarei em te compreender.

Eu também tenho certeza, meu filho, que ser pai é ter coragem, e por mais que possas achar que sou inabalável emocionalmente frente às tuas dúvidas, saibas que para tanto eu estarei empreendendo um esforço tremendo, tal como um equilibrista em uma corda bamba. Minha coragem estará sempre em te tratar com ternura, afeto, mas também com rigor, pois só assim nós dois poderemos crescer juntos.

E além do amor que eu irei te dedicar por toda minha vida, meu filho, peço que não me compreendas mal, mas saibas que um dos meus maiores desejos é te ver sofrer.

Quero sim, meu filho, que você sofra, pois não quero que você ignore o sofrimento de tantos e tantos seres iguais a ti que não terão o privilégio de sorrir. Quero, sim, que sofras, pois não quero que padeças omisso frente às injustiças que presenciarás inúmeras vezes na tua vida. Desejo que sofras muito, meu filho amado, ao presenciares a luta inútil que tantos irão lutar para sobreviver.

Quero te ver sofrer, meu filho, pois quero te ver lutando junto com os que pouca força têm para lutar. Quero te ver lutando, meu filho, ao lado dos que só recebem as pancadas do mundo. Não quero te ver calado, meu filho, frente ao mal que pode ser evitado. E quero, sim, te ver lutando a luta para que ninguém mais tenha que lutar.

E declaro a ti, meu filho, por fim, e a quem mais queira saber, meu amor incondicional a ti, e que se algo posso deixar quando eu morrer, que seja a certeza que teu pai só quis ver, em todos os dias da sua vida, um sorriso no teu rosto e que você possa amar muito e se amado mais ainda.

Que você nunca se sinta pesado.

Sejas sempre o fator de mudança que o mundo precisa.

Do seu pai, que hoje e para sempre te amará, Manoel.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Lírios e reformas

Isso porque sucessivos governos, querendo atrair imigrantes europeus, inclusive para melhorar a raça, a eles deu lotes de terra e ajuda econômica. Coisa que nunca se fez, e até se proibiu fazer, para os brasileiros.
(Darcy Ribeiro, O povo brasileiro)

Em 13 de maio de 1888, uma lei com dois artigos punha fim à escravidão no Brasil. O epíteto de Áurea aproximou a Lei assinada pela regente Isabel das luzes que os revolucionários franceses proclamavam em outro Continente. 
Sendo o último país das Américas e um dos últimos do mundo (antes apenas de Zanzibar, Etiópia, Arábia Saudita e Mauritânia), o processo foi lento e penoso no Brasil, com sua elite agrária e política resistindo com todas as forças a esse inescapável passo em caminho ao reconhecimento da dignidade de todos os seres humanos. A convicção de que homens e mulheres não podem ser instrumentalizados pelo simples fato de serem fins em si mesmos, detentores de uma dignidade que atravessa qualquer contingência, apenas lentamente se acomodou na totalidade dos brasileiros.
No dia seguinte, os festejos dos que entendiam a importância histórica dessa medida, ainda que tardia, contrastavam com as reações conspiratórias dos que definiam a nova medida como desestabilizadora da economia nacional, lamuriando suas perdas e a irremediável queda na sua qualidade de vida futura, tendo em vista que, de agora em diante, teriam que ser obrigados a pagar mão de obra.
Coadjuvante a este cenário, filas de negros agora livres cortavam os campos das lavouras, portando seus bens que, quando tinham, cabiam com folga em uma trouxa de pano. Olhavam-se como a perguntar um ao outro o que, agora livres, iriam fazer. As luzes dos ideais iluministas não chegavam a fazer esquecer que sua realidade em nada mudaria: sendo a liberdade a flor mais bela do campo humano, não exalaria seu perfume sem que as outras condições assim permitissem. A lei não basta, os lírios não nascem da lei, citaria, emprestando mais dignidade aos versos de Drummond, o Professor Antônio Cavalcante.
Livres, mas sem liberdade, pois ausentes as condições materiais para exercerem qualquer atividade, estigmatizados por séculos de legitimação legal da violência contra si, longe, portanto, de qualquer discurso meritocrático, viam-se novamente presos, novamente escravizados.
Aos que continuaram o caminho oposto à senzala, restou o subemprego, a discriminação, a periferia, quando não a criminalidade. Outros, no entanto, sem enxergar outros horizontes, esqueceram a dignidade que a lei os concedera e voltaram para implorar emprego aos seus antigos senhores que, muitas das vezes, há poucos dias haviam os torturados, em seus corpos e dignidades, pondo-os nas mesmas condições - as vezes nem tanto - de seus animais. Para alguns, essa seria uma negociação em igualdade, e resta perguntar em quais termos essa condições evoluiu desde então, mesmo com uma legislação que punha condições irrenunciáveis. 
Hoje o Brasil aprovou uma reforma trabalhista que, longe de se confundir com as condições de escravidão, traz para o mesmo banco empregado e empregador, além de simplesmente excluir inúmeros outros direitos tão duramente perseguidos através dos séculos; tira novamente do trabalhador brasileiro a possibilidade de ter o mínimo. Mínimo que sequer cogita a elite viver em tais condições. Mínimo que, a cada dia, a partir de hoje, será mais mínimo. 
As leis não fazem lírios, mas podem, sim, destruí-los.

sábado, 10 de junho de 2017

Gênero e cor da humanidade

"Finalmente foi esquartejado [relata a Gazette d'Amsterdam]. Essa última operação foi muito longa, porque os cavalos utilizados não estavam afeitos à tração; de modo que, em vez de quatro, foi preciso colocar seis; e como isso não bastasse, foi necessário, para desmembrar as coxas do infeliz, cortar-lhe os nervos e retalhar-lhe as juntas..."
(FOUCAULT, Vigiar e punir)

A fotografia tirada por Will Counts retrata uma jovem com roupas claras, com um fichário ou caderno deitado em seu braço, carregando um semblante que transita entre o temor, a altivez, a coragem e uma tentativa de demonstrar indiferença. A jovem é Elizabeth Eckford, então com 15 anos de idade, sobressaindo em um grupo que fazia um tumulto devido à sua presença. Atrás de si, outros jovens gritavam coisas do tipo "Dá o fora, macaca", "Volta pro teu lugar", "Vamos linchá-la", "Vai pra casa, negona, volta para a África", frases que saíam das bocas violentamente escancaradas de jovens que formavam uma fileira atrás dela, logo à frente aos policiais que tentavam manter a ordem.
Elizabeth Eckford fez parte do grupo de nove jovens negros - em um universo de 2 mil alunos - que foram ao seu primeiro dia de aula na maior e melhor escola de Little Rock, Arkansas, Estados Unidos, escolhidos pela direção da Central High School para cumprir a ordem judicial de integração racial no país. A escolha fora rigorosa: os negros deveriam morar perto da escola, ter ótimo rendimento e aparentar ter atitude de não revidar às agressões que fatalmente iriam sofrer. Critérios, claro, que não se estendiam aos demais alunos.
Cerca de cinquenta anos após esse episódio, sua mera descrição causa repulsa aos que têm o mínimo de humanidade e respeito pelas diferenças. Hoje, apesar de vivermos, sim, em um país extremamente racista, ao menos a priori ninguém se assume explicitamente como racista, no que pese os sorrateiros atos de descriminação que diariamente ocorrem, e só quem é negro sabe a dor que é suportar o tratamento negativamente diferenciado nas suas mais varias formas. É verdade que o grande espetáculo do suplício se desintegrou e se transformou em minúsculas e onipresentes atos de agressão, em uma verdadeira microfísica da violência.
E essa nova forma de violência não é em nenhum grau menos dilacerante. Lutas históricas, no entanto, lograram o êxito de ao menos causar pudor aos crápulas que vociferavam despudoradamente seu ódio infundado. É o que ocorre, transposta as diferenças, com a comunidade LGTB.
Durante séculos, a naturalidade da homofobia não escolheu classe, país ou regime: ao mesmo tempo em que Cuba, nos primeiros anos pós-Revolução, perseguia os homossexuais, a liberal, moderna e progressista Inglaterra punia criminalmente com castração química  os chamados sodomitas. Da mesma forma, em graus diferentes, países em todo o mundo, se não institucionalizavam, ao menos não puniam a discriminação com os homossexuais.
Da mesma forma que a nação parâmetro da democracia e, de outro lado, uma ex colônia africana traziam em seu arcabouço político-jurídico a discriminação institucionalizada - EUA e África do Sul, respectivamente -, ainda hoje não é raro países patrocinarem normas que, de alguma forma, dividem os cidadãos entre os que devem possuir direitos e os que não o devem, pelo fato de terem uma ou outra orientação sexual ou identidade de gênero. Apenas recentemente decisões política ou judiciais buscam superar essa anomalia, sem, no entanto, evitarem discussões e atos acalorados dos que acham o contrário. 
Sejam leis que proíbam o casamento, seja a tácita norma que proíbe casais do mesmo sexo de se comportem da mesma maneira que casais héteros, a segregação irracional contra os LGBT's perpassa nossa atualidade, e os transformam em cidadãos de segunda classe que correm o risco iminente de sofrerem agressões tão ou mais violenta dos que sofreu Elizabeth há cerca de cinquenta anos.
De nada vale, no entanto, a aguerrida luta de alguns parlamentares ou movimentos em busca de garantir direitos a quem merece, e aos que por tantos anos vêm sofrendo as mais variadas formas de dor por algo que não deram causa, se não ocorrer, de fato, em cada um, a conscientização que assuntos de ordem pessoal devem se restringir... à intimidade, e refrear os que querem impor suas convicções aos demais.
E esse argumento não se amplia aos que acham que, assim o sendo, não se deve falar abertamente e ensinar a todos, inclusive às crianças, que não há relativização à discriminação. As crianças, mais do que ninguém, devem absorver diariamente a noção de que elas não devem praticar violência contra seus colegas de colégio, seus futuros colegas de faculdade ou de emprego, além das muitas outras pessoas com as quais irão conviver durante sua vida. Para além de um caolho e minimizante argumento de prática doutrinária por ideologia de gênero, essa educação é o ensinamento do respeito a todos, e um necessário contraste com situações de agressão que irão presenciar, infelizmente, pelas suas vidas.
Da mesma forma que, hoje, não se admite, ao menos explicitamente, agressões contra negros pelo simples fato de serem negros, não se deve admitir também as mesmas agressões contra gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. O espectro da sexualidade humana é tão complexa como sua própria natureza, e a redução dogmática que ainda hoje se faz não tem raízes em fatores outros que não a cultural, e, somente através de uma mudança na cultura, se mudará atitudes e a realidade. 
Não é necessário ser negro para ser contra o racismo, da mesma forma que um hétero pode, e deve, levantar a voz contra a homofobia e contra as demais discriminações. Que seres humanos defendam seres humanos, sob pena de, amanhã, sermos nós os que figuram em uma atualizada fotografia de Will Counts agredindo alguém que ostenta nada mais do que o seu ser. 
A humanidade não tem cor nem gênero.

Na cidade de Mossoró, RN, sabendo que seu filho gostava de lavar louças e de dança do ventre, e com o temor de que, por esse motivo, ele fosse homossexual, o pai espanca o franzino corpo do seu filho dias a fio, para ensiná-lo a andar como homem. Com oito anos de idade, a criança tem seu fígado dilacerado e morre pouco depois.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Gestão política ou privada

- Eu sei. E isso é mais uma razão para ser severo. Sua elevada condição intelectual traz consigo responsabilidades morais correspondentes. Quanto maior é o talento de um homem, mais poder tem ele para desviar os outros. É preferível o sacrifício de um à corrupção de muitos. Encare o caso sem paixão, Sr. Foster, e verá que não há crime mais odioso do que a falta de ortodoxia na conduta.
(HUXLEY, Admirável mundo novo).

Nos últimos anos, figuras como Michael Bloomberg, Donald Trump, João Dória e outros abastados, ao se envolverem na política com o argumento de administrar o bem público com o mesmo esmero com o qual ergueram suas fortunas, prometendo a reprodução do sucesso de seus empreendimentos nos assuntos da urbe, fez erguer, não só no Brasil, é verdade, mas também aqui, um culto ao imparcial e apolítico homem bem sucedido financeiramente - ou um self made man - que, altruisticamente, dispensará agora seu know how para fazer não política, mas, sim, administrar a todos nós.
Claro que a crítica não se dirige no sentido de impedir ou desqualificar como gestor público alguém que ocupe determinada profissão, implicando necessariamente em um fracasso travestido assepticamente de sucesso. Mas o contrário também não é absoluto, e pelos mesmos fundamentos.
O mais preocupante não é o fato de que empresários se tornem políticos per si, mas sim a lógica que se está disseminando na sociedade de que os fundamentos da administração privada se aplicam à administração pública, e que ser bem sucedido nos seus negócios particulares levará, invariavelmente, ao sucesso e à bonança equivalente nos assuntos públicos.
Não é tarde lembrar que os princípios da iniciativa privada diferem dos da administração pública, basta lembrar o ensinamento de que, sendo a menor distância entre dois pontos uma linha reta, a lógica da economia na construção de uma estrada desconsideraria uma árvore milenar ou uma pequena - e economicamente desimportante - comunidade que atravancasse o seu caminho. 
Se essa lógica se aprofundar, logo se exigirá curso superior como requisito para ocupar cargos públicos, nos levando ao caminho da platônica sociedade administrada por filósofos, a elite grega, transposta para os operadores das engrenagens econômicas que formam a minoria dirigente nacional, a elite brasileira, tão distantes dos que compõem a maior área da pirâmide social brasileira, escamoteando progressivamente o povo da participação direta e efetiva dos rumos de sua sociedade.
Foge à lógica empresarial o empreendimento de gastos sem retorno econômicos, que formam o sustentáculo de uma sociedade desigual e, em sua maioria, sem acesso aos bens na mesma medida e qualidade que a minoria, sendo a mão  do Estado - precária, é verdade - a única que se estende para que seja garantido o mínimo aos que, com os próprios pés, hoje, não conseguiriam o sustento para si e para seus familiares, muitos dos quais integrantes das classes historicamente exploradas, relegadas, condenadas a um destino de esquecimento e discriminação, e só com mudanças profundas, e, por isso, demoradas, chegariam a uma mesma condição de competição com os que não herdaram as dificuldades e dores que nunca conseguirão compreender.
O temor de que surge é que os critérios de engajamento social e político, disposição e talento para liderar uma política econômica e social de distribuição de renda, desenvolvimento, direitos sociais etc., sejam substituídos por um exclusivo talento em manejar a burocracia, que encanta uma população que parece se inebriar com a perfumaria de um linguajar exótico, aparentemente culto e, ainda, eventualmente, a modéstia milimetricamente fabricada que chega a ignorar a própria eficiência tão defendida para se fantasiar de gari em investidas publicitárias, em um claro reconhecimento do abismo que separa duas classes, emulando uma profissão que nunca exerceria na prática, com um implícito desejo de que essa diferença assim continue, para, oportunamente dela se apropriar.
Difícil, sim, saber se a prática não ignora qualquer euforia eleitoreira e, de fato, já não são, há tempos, esses mesmos residentes do topo da pirâmide os únicos aptos a se elegerem, dado a difícil transposição que a estrutura econômica impõe em um certame político. Mas havendo um impedimento, mesmo que ao nível psicológico, aos que advém das camadas baixas de ocuparem os cargos de representação, nossa sociedade irá, de fato e de direito, ser tomada das mãos do povo e, fatal e progressivamente, transformada em uma planilha de números que não cabe e não compreende a narrativa histórica que fez dessas terras o Brasil de hoje.

Digressão histórica:

Proclamada a Independência, tornou-se imperioso a consolidação política e jurídica do novo país. Para tanto, convocou-se uma Assembléia Constituinte sob a condução de José Bonifácio de Andrada, que leva as discussões a uma posição mais liberal, relativizando o poder de D. Pedro I que, percebendo os rumos que o levariam a uma perda de poder e, também, perda do apoio da elite politico-econômica que tinha interesse na sua manutenção com o poder na Coroa, desmantelou a constituinte e proclamou, em 1824, a primeira Carta Política brasileira que, dentre outros, impedia  a participação na vida política "Os que não tiverem de renda liquida annual duzentos mil réis por bens de raiz, industria, commercio, ou emprego".

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Por que sou contra as Diretas

- Não o surpreendeu meu aparecimento súbito?
- Não - replicou -, tais visitas ocorrem de século em século. Não duram muito; o mais tardar, amanhã estará em sua casa.
(Borges, Utopia de um homem que está cansado)

A obrigatoriedade do uso de terno e gravata, para os homens, e roupa composta, para as mulheres, impedia a liberdade de movimentos necessários à profissão. O ar solene que a situação reclamava era impedida pelo calor causado pelas inúmeras lâmpadas, cabos, câmeras, e pelo amontoado de pessoas que um protocolo buscou, sem sucesso, organizar. Assim a imprensa cobria a posse de Michel Temer como Presidente da República em uma das salas do Palácio do Planalto no ano de 2016.
Após um processo de impeachment que dividiu o país, Dilma Rousseff era deposta por ter cometido crime de responsabilidade, pena determinada pela Constituição Federal ao chefe do Executivo. Golpe parlamentar para uns, alívio a um Brasil agonizante para outros.
Com o Senador Aécio Neves fazendo as vezes de anfitrião do novo governo, Michel Temer divulgava o novo ministério, convocando cada um dos Ministros que entre palmas, gritos de comemoração, assobios e palavras de ordem, subiam em um pequeno palanque, ombro a ombro em várias filas desorganizadas delineando uma fotografia sem ordem ou composição.
Pouco mais de um ano depois dessa cena, surgem gravações em que o mesmo Michel Temer, em conversa com um empresário, incentiva-o a continuar pagando a quantia de quinhentos mil reais por semana a Eduardo Cunha, ex-Presidente da Câmara e grande regente do processo de impeachment, hoje preso em Curitiba. O dinheiro serviria para mantê-lo em silêncio sobre os bastidores do processo de impeachment e, provavelmente, sobre os bastidores de anos da política nacional.
Frente ao escândalo, partidos políticos, imprensa e sociedade civil surgem com teses que vão desde a renúncia até mais um longo e penoso processo de impeachment. Temer se recusa a renunciar, mesmo tendo sido desmentido poucas horas após fazer uma declaração à nação brasileira afirmando sua inocência, quando foram publicadas as gravações.
Não restam dúvidas da gravidade da conduta do Presidente. Difícil, inclusive, buscar na memória outro episódio na historiografia brasileira em que um chefe de Estado tenha agido de forma tão hedionda contra a moralidade e contra a probidade que o cargo exige que, apesar de sua recusa, e tendo em vista a já visível fuga de aliados e clamor popular, levará, cedo ou tarde, a sua queda, episódio que deixará mais cambaleante a democracia brasileira.
Destarte, uma discussão que se impõe é o que ocorrerá após sua destituição. E sobre isso que venho apresentar uma opinião que, por ser opinião, se baseia nas minhas concepções íntimas baseadas, em alguma medida, em textos que estimo serem de importância para o tema.
Basicamente, duas propostas foram levantadas: a primeira, a de eleição indireta feita pelo Congresso Nacional; e, a segunda, da aprovação de um Projeto de Emenda à Constituição que permitiria as eleições diretas ainda esse ano.
Sobre a primeira, facilmente se delineia seus fundamentos, pois o próprio texto constitucional em seu artigo 80, primeiro parágrafo, afirma que ocorrendo a vacância nos últimos dois anos do período presidencial, a eleição para ambos os cargos será feita trinta dias depois da última vaga, pelo Congresso Nacional, na forma da lei.
Assim, em caso de deposição do atual Presidente, o Congresso Nacional elegerá o próximo chefe de governo para concluir o atual mandato e, em outubro de 2018, as eleições diretas ocorrerão normalmente.
O dispositivo é sucinto e a Lei 1.079 - Lei do Impeachment - não disciplina a matéria, apesar do mandamento constitucional, o que deixa inúmeras dúvidas sobre os procedimentos tanto da eleição em si, quanto dos requisitos para os possíveis candidatos, o que, imagino, seria matéria de consulta e regulamentação no seu desenrolar pelo próprio Congresso e pelo Supremo Tribunal Federal.
A segunda possibilidade seria a aprovação de um Projeto de Emenda à Constituição já protocolizado na Câmara Federal, que autorizaria a realização de eleições diretas, ainda esse ano, para à Presidência da República.
Proposta que não vejo como mais salutar. Apesar de reconhecer como tendo sido um golpe parlamentar o impeachment da Presidente eleita; apesar de reconhecer a debilidade do Congresso Nacional em eleger um Presidente; apesar de saber que só com legitimidade direta haverá possibilidade de alguma reconstrução do Estado brasileiro; apesar, ainda, de saber que a eleição indireta não trará qualquer benefício político para o Brasil. Apesar dessas convicções, e também a de que a Constituição teve uma sucessão de desrespeitos desde o ano passado, não vislumbro que mais uma anomalia poderia saná-la de tudo o que vem sofrendo; seria mais um retalho que o calor do momento - momento gravíssimo, é verdade - costuraria no texto político que por muito pouco vem se sustentando, tanto formal quanto materialmente.
Sim, o texto de 1988 levou seu mais violento golpe quando desconsiderou a legitimidade popular para servir a interesses espúrios de um grupo (me recuso a denominá-los como elite) que se sentiu ameaçado e articulou com os detentores de mandatos o julgamento de um crime que não ocorrera. Citar Kafka seria clichê.
Temo que esse sentimento de efemeridade substitua de vez o mínimo de perenidade que o Estado de Direito deve garantir à sociedade, consolidando a segurança jurídica, garantindo Direitos Fundamentais e a presença popular nos atos políticos.
Sim, desconsiderar os pilares que sustentam uma ordem constitucional tem seu preço, e tal como um grande navio que deve corrigir sua rota, manobrá-los é algo demorado, lento, custoso. Sim, algo lastimável, por fim.
Lembro que a grande celeuma dos que discordavam de que o impeachment de Rousseff era golpe se pautava no estrito respeito aos trâmites legais, caolha percepção dos que confundem processo com matéria, forma com conteúdo, em uma quase que transcrição do diagnóstico de Castanheira Neves sobre como o pensamento jurídico deixou de se preocupar com a validade e a intencionalidade normativas do direito – momentos essenciais do jurídico – para cuidar apenas de sua validade e intencionalidade cognitiva, levando a uma indiferença axiológica-normativa, ficando, assim, o pensamento jurídico pronto a ser sancionador e colaborador de possíveis despotismo. Para o Ínclito Professor português, o positivismo destruiu a razão, convertendo-a em técnica.
O professor espanhol Pablo Lucas Verdú, em sua obra A luta pelo Estado de Direito - brilhante referência à obra do alemão Rudolf Von Ihering - afirma que, no transcorrer do seu desenvolvimento, o Estado de Direito em suas múltiplas formas é uma conquista. Conquista a ser buscada diariamente. Não cabe dogmatismo no Estado de Direito, sendo este a única conquista contra o despotismo que, para além de um pensamento literalmente contratualista, aparenta ser a forma padrão em que se governa se não houver o Direito para impedi-lo.
Uma nova causalidade constitucional talvez derrube de vez o que nos resta democracia e de Estado de Direito. O Brasil sairá fraco de todo esse turbilhão, atingindo mais fortemente, como é quase tradição, os mais fracos. O povo brasileiro está suportando um golpe que não pediu, e um Congresso que não o representa teria que escolher seu novo chefe de governo. Mas é justo lembrar que esse mesmo Congresso é formado por representantes eleitos pelo povo e, de alguma maneira, o representa, sim.
Se passarmos a questionar a legitimidade indefinidamente de todos os órgãos, estamos falidos não representativamente, mas, sim, enquanto uma sociedade política.
Que tudo isso nos sirva de lição para olharmos com a atenção devida nossa condição de povo organizado e o modo como damos nossas vozes a quem deve falar por nós. Se assim não o for, só nos resta a luta para, mais uma vez, buscar salvar o Estado de Direito.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Lascaux, o espaço e as pichações

Em meados da década de quarenta do século passado, quatro jovens entraram em uma gruta no sudoeste da França sem qualquer pretensão. Em suas paredes, traços inicialmente disformes, em parte devido à enorme dimensão das figuras e da própria estrutura das paredes, em parte devido à primitividade dos traços e à deterioração sofrida em decorrência do tempo, passaram a formar frente aos olhos dos jovens figuras de animais: cavalos, bois, bisões, vacas. Certamente, uma qualquer estupefação inicial que tomou aqueles jovens não se comparou com o que depois o mundo da história e da arte foram tomados: estudos de Carbono 14 estimaram que tais figuras tinham entre 15.000 e 17.000 mil anos.
A certeza quanto a datação que os testes de carbono dão, não se pode também contar em relação aos significados e motivos que os artistas pré-históricos quiseram imprimir nas suas obras. Tal tarefa cabe aos historiadores e artistas. Seriam tais desenhos representações místicas que buscam conjurar no mundo real os animais, que são suas caças e seus alimentos? Talvez a representação figurativa do mundo conhecido por aqueles seres humanos? Ou, simplesmente, um exercício técnico do artista? Difícil, talvez impossível, chegar a alguma conclusão, ainda mais quando se trata de antepassados tão remotos que não deixaram escritos.
Um fato, porém, é inconteste: a precisão técnica e a beleza, tanto estética quanto humana, daquelas imagens. Em muitos desenhos se pode identificar a delineação de sombras, texturas e perspectivas realmente impressionantes. Ademais, e talvez superior a isso, a convicção de que, aqueles homens, idênticos fisiológico e anatomicamente a nós hoje, ensaiando os primeiros passos da arte feita com cuidado técnico e precisão apresentaram a nós, milhares de anos mais velhos, a superação da razão, em seu domínio técnico e na busca pela beleza, em comparação a animalização instintiva que nos fez sobressair sobre as demais espécies, conhecer, dominar e utilizar ao nosso favor - por vezes também ao nosso desfavor - os recursos do mundo que nos cerca.
Seria esdrúxula a comparação, pari passu, das pinturas da grota de Lascaux com as pichações e grafites que encontramos hodiernamente nas nossas cidades. No entanto, tal aproximação leva à reflexão acerca do espaço e dos surgimentos espontâneos da arte. Não havia no paleolítico as cidades nas quais hoje estamos inseridos. A natureza era a cidade daqueles homens, e tudo nela a eles servia. Com o surgimento da urbe, do Estado e da propriedade, concomitantemente se alterou a noção de espaço. Se antes, nada era propriedade, depois, tudo passa a ter um dono, seja o particular, seja o Estado, seja a coletividade.
Da mesma forma, a arte progressivamente foi sendo apropriada, seja pela tentativa de uniformização e padronização de técnicas e estilos, seja através de uma determinação quase mandatória dos lugares de sua exposição: museus e galerias, curiosa tentativa de domesticar o que de mais livre e espontâneo habita o ser humano.
Nos últimos dias, vimos o novo prefeito da cidade de São Paulo travando uma luta hercúlea contra as pichações e grafites naquela cidade, impondo uma acinzentada uniformização do espaço coletivo, apagando obras como o painel de Os Gêmeos - artistas reconhecidos e cultuados mundialmente - no Viaduto do Glicério. Para o prefeito, a arte tem ter lugar específico, quem quiser admirá-la tem que procurar seus espaços, quem quiser criar tem que se contentar com a limitação imposta pelo poder público, o que inviabiliza completamente os que, diferente Romero Brito ou outros afortunados, não têm condições de bancar a exposição de sua criatividade.
Os espíritos livres dos nossos ancestrais criaram nas cavernas uma obra que resistiu aos anos e nos mostrou os primórdios da complexidade de nossa mente, a intensidade da nossa abstração, a singularidade do fenômeno humano em transformar traços em simbolismo do mundo real, a habilidade das mãos formando na nossa percepção a reprodução da realidade, a formação da arte que nos conscientiza, nos fascina e nos emociona; o espírito fechado, ao contrário, dos que parecem ter na arte apenas um atestado capenga de seu pedantismo intelectual, querem se apropriar por exclusão desse mundo quase iniciático que seria a arte para eles.
Pablo Picasso, um dos maiores pintores da história, esteve na caverna francesa, e muitas obras suas, inclusive Guernica, teve grande influência das pinturas de Lascaux.


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Gato Barbieri

Gato Barbieri condensa em sua obra os ritmos da América Latina e, com isso, as agruras e alegrias do continente, passeando da sensualidade do tango, à dramaticidade da rumba, à alegria do samba, tudo isso adensado com a subversão elegante do jazz.
Uma das mais conhecidas obras de Barbieri é a trilha sonora do grande filme O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, casando perfeitamente com o clima sensual e dramático, a música de Gato Barbieri deve ser ouvida sem 'beurre'.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Uma parada na saudade.


As obrigações laborais me levaram hoje a uma das cidades da Paraíba ainda para mim desconhecidas: Aroeiras, no Agreste do estado.
Mesmo nos aventurando em terras nunca dantes, por nós, navegadas, tivemos o que pareceu ser uma ótima ideia de cortar caminho por um atalho. Resultado: por mais que tenhamos economizado alguns bons quilômetros, as naturais condições de uma estrada de barro nos tomou um tempo para além das nossas expectativas. Porém, o que poderia ter sido motivo de arrependimento, acentuado ainda pelo sol inclemente e indiferente a qualquer ar-condicionado, foi, na verdade, um exercício de saudade, pois fez surgir aos meus olhos uma paisagem quase idêntica à qual, na não tão distante meninice, descortinava-me as entranhas telúricas de Barra de Santa Rosa, nas minhas andanças pelo Algodão de Jandaíra.
Tal qual as várias lavadeiras que planavam sob o céu, minhas lembranças voavam livres e festivas ante à aridez perenizada, em mim e na terra, cada um devido ao seu tempo. Se há algo que pouco se diferencia nos rincões nordestinos, é a disposição, arquitetônica e moral, do sertão, esse descampado da modernidade que pulsa vida em todas as suas veias.
Na terra, o mormaço convivia com os primeiros sinais de chão rachando há poucos metros de um açude, o oásis do sertanejo, supridor de tão primitiva necessidade, inevitavelmente trazendo à memória a imagem da sempre presente expressão de iminente sorriso, ou gargalhada, que leva à face da pele castigada pelo sol o relevo de tantas marcas de uma vida de luta. Água e sorriso, brisas inescapáveis desses tão humanos titãs, que não saberia ao certo dizer se eles suportam o sertão, ou o sertão é quem suporta suas imponências.
Ainda no chão, a rudeza das cactáceas pincelavam tão delicada composição. Levavam, essas plantas, o para nós inconcebível passar e suportar do tempo. Não poderia o reino vegetal ser mais perspicaz: tal qual o homem, com o qual coabita, também ignoram as intempéries, naturais ou humanas, que fustigam apenados inocentes, colossos que confrontam e perseveram frente a todas as dificuldades.
Nos alpendres, a comprovação de uma cronologia diferente: semblantes cansados repousam, crianças parecem flutuar sobre as ruas, despreocupadas com qualquer escândalo de crueldade, confiantes no elo que a todos une - a lealdade - e a que todos recebe - a caridade.
Deselegantemente, prestei atenção a uma conversa em andamento entre uns residentes, quando um disse: - Ele morreu porque depois que bateu a moto foram socorrer ele, todo mundo sabe que não pode mexer em quem sofre acidente, tem que esperar a ambulância, mas ninguém aguentou ver ele sofrendo, aí mexeram, e ele morreu.
Oh, infindo coração dos homens e mulheres do sol, que sofrem a dor mais exígua e distante dos seus como se sua fosse! Que se despojam de quaisquer vaidades ou empecilhos para ajudar conhecidos ou desconhecidos! Quiçá o mundo, um dia, deixe de ser esse deserto egocêntrico e vire sertão, esse oceano de humanidade!
Quando organizei no meu bolso inúteis indumentárias que nosso mundo nos obriga a carregar, celular, chaves, papéis, vi-me no Algodão do Jandaíra correndo descalço, sujo de barro, sorridente entre outras crianças, cachorros, galinhas, vacas, despojado de tudo que não de alegria. Vi-me feliz, por que não?
Apontando de volta ao litoral, escapou-me novamente minha saudade - criatura que não nos habita, antes nos parasita - e volta ela ao seu lugar de sempre, à poeira, ao sol e à companhia dos fortes que a tudo suportam.
Antes de partir novamente, materializa-se como que para se despedir, e em forma de preá atravessa nosso caminho, adentrando no habitat exclusivo dos que trazem em seu coração a chave para decifrar a simples complexidade do homem e da mulher da terra. Adeus, minha saudade, até a próxima volta.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Desigualmente igual?

Desde que altos funcionários do FMI disseram que o modelo neoliberal estimulado durante tantas décadas pelo Fundo pode ter aumentado a desigualdade mundial que setores da esquerda se regozijam de terem denunciado o modelo tão sôfrego imposto aos países que tiveram que se socorrer ao organismo, se submetendo aos ditames de austeridade que refreava, ou impedia, o desenvolvimento social e uma maior distribuição de renda.
A dolarização da economia mundial somada ao império financeiro e monetário que fora imposto ao mundo em Bretton Woods tem sido, se transvestindo de salvaguarda da economia do mundo pós-45, o grande vetor da consolidação da hegemonia monolítica dos EUA, que controla tanto o FMI quanto o Banco Mundial.
Os BRICS vêm buscando implantar uma alternativa a esse pelos países em desenvolvimento, notadamente com a criação o Banco Brics. Os países membros desse bloco podem ser considerados países em desenvolvimento e, estando virtualmente inseridos na zona das agruras econômicas e sociais inerentes ao seu estado, teriam maior sensibilidade quanto à forma das concessões financeiras e ajudas, que seriam mais democráticas e socialmente responsáveis.
A presença, no entanto, de duas potências nucleares com ares - para se dizer o mínimo - totalitaristas, ao mesmo tempo que individualmente vêm buscando expandir seus interesses bélicos, geográficos, econômicos e monetários - vide os vultuosos investimentos feitos pela China na África com vistas a privilégios comerciais, e seus planos de aumento de investimentos na América Latina - leva ao questionamento de se, futuramente, implantado e bem sucedido os planos do bloco, não haveria uma situação não muito diferente da que hoje temos dada.
Um maior equilíbrio com certeza iria existir, resta a expectativa de que uma oportunidade ímpar dessas seja bem aproveitada para, sim, dessa vez, diminuir a desigualdade no mundo.

Nocaute


Não poderia deixar de indicar o blog do grande escritor Fernando Morais - Olga; Chatô, o Rei do Brasil - , o Nocaute, ácido e parcial como tem que ser.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Autógrafo especial

Ontem tive a honra de ganhar o autógrafo do grande jornalista e escritor Tião Lucena, grande baraúna das letras paraibanas e digno representante da cidade de Princesa Isabel. Seu livro, A Guerra de Princesa (Editora Bagaço), trata de um dos mais interessante episódios políticos que marcaram a as vésperas da República Velha, que foi a revolta do município paraibano liderada pelo coronel José Pereira frente ao governo de João Pessoa, que resultou na proclamação da República de Princesa, com hino, bandeira, governo próprios e uma Constituição em elaboração.
O livro está infelizmente esgotado, mas caso alguém o encontre em algum sebo, vale muito a pena a leitura.
Tive até a honra de aparecer no Blog do Tião, referência no Brasil sobre política local, com os comentários sempre certeiros do nobre princesense.
Tripla honra para mim: a maravilho recepção, o autógrafo e a a lembrança no blog por Tião. A ele, meus mais sinceros agradecimentos.

Mopho

No ano de 2001, mais ou menos, fui apresentado a uma banda psicodélica brasileira de Alagoas: Mopho. Meu amigo Salomão me emprestou o primeiro CD da banda, e ainda me passou alguns links com matérias e entrevistas. Com nítida influência de Mutantes e (claro) Beatles, mas também com uma personalidade bastante forte para se firma como uma banda longe de uma mesmice que poderia aparentar, e eu, fiquei louco pela banda. Lembro que, na época, fiz até amizade com um primo de um dos integrantes, e vivíamos conversando pelo finado ICQ, o que me deixou sempre atualizado sobre o que acontecia com os caras e tal. Fui até um dos primeiros a saber que a banda tinha acabado.
O nome Mopho vem de um comentário que um sujeito fez sobre o som da banda, dizendo que iria mofar porque estava ultrapassado, aí juntou com o lance do psicodelismo e ainda mais com o nome de uma música do U2, que é mopho também.
Para quem quiser escutar, eis o MySpace e o Facebook. E abaixo segue um texto com um pouco da história da banda.
--
O Mopho teve a sua estréia no mercado fonográfico em 2000 com o disco homônimo “Mopho” lançado pelo selo paulistano Baratos Afins. O disco de estréia levou a banda, naquela época a ilustrar as páginas dos principais jornais e publicações do Brasil, alguns veículos da imprensa chegaram a apontar o quarteto como a principal banda psicodélica do país fazendo com que o quarteto participasse dos principais festivais de música como, por exemplo: Abril pro Rock (Recife e São Paulo), Porão do Rock (Brasília), Balaio Brasil (São Paulo), Festival de Inverno De Garanhuns (Pernambuco), contabilizando ainda shows por Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis entre outras grandes cidades. O som do grupo cruzou as fronteiras do país e figurou como destaque na rádio KARXL de Berkley (Califórnia, USA) durante muito tempo. Em 2003 quando estavam prestes a lançar o segundo disco e após terem tocado por todo o Brasil, a banda se dissolveu. Em 2004 o Mopho lança “Sine Diabolo Nullus Deus” (Baratos Afins) com apenas dois integrantes da formação original – João Paulo (guitarra e vocais) e Leonardo Pereira (teclados). No mesmo ano os dissidentes do grupo – Júnior Bocão (contrabaixo e vocal) e Hélio Pisca (bateria) lançam “A Terra é nossa Casa Flutuante” (Independente) com um novo projeto, batizado de Casa Flutuante, e seguem para fixar residência em São Paulo. Em junho de 2008, após cinco anos separados, o grupo se reencontra para um show na capital paulista e ali começam a escrever um novo capítulo para essa história. João Paulo, acompanhado de Dinho Zampier (teclado) propõe a Júnior Bocão e Hélio Pisca a produção de um novo disco. Ainda em 2008 a banda participa do festival Quebra-Mar (Macapá) e voltam a se encontrar em Alagoas em junho de 2009 ano, onde em cinco dias selecionam repertório, arranjam e iniciam as gravações do esperado terceiro álbum, ainda sem título e com previsão de lançamento para este ano. O Mopho já tem 13 anos de trajetória e uma história que se divide entre altos e baixos, brigas, reencontros, uma legião de fãs espalhados por todo o país e o reconhecimento por grande parte da crítica musical atuante no Brasil. Agora mais maduros, o quarteto promete recolocar a banda em uma posição de destaque, fazendo o que mais sabem, música de qualidade e um alto teor de sofisticação em seus arranjos e canções. Arnaldo Baptista em uma entrevista ao Estado de São Paulo certa vez proferizou,... O contrário de Mopho não é “fômo”, o contrário de Mopho é “Vortemo”! Um belo trocadilho que agora faz todo o sentido, pois o famoso e lendário Mopho está de volta e a todo vapor!

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Sobre a reforma da educação

"A man in a room", atribuído a Rembrandt ou a um seu discípulo
Nunca dei relevância às teorias conspiratórias que afirmam que os políticos não investem na educação por que querem uma população ignorante para, assim, ser manipulada mais facilmente. E não acredito nisso porque acho que nossos políticos não teriam a sutil inteligência para delinear um raciocínio tão malignamente sofisticado.
Não se dá a devida importância à educação no Brasil pelos mesmos motivos que não se dá à saúde, segurança, urbanização, transporte etc: por completa incompetência e desinteresse, e não após uma decisão a portas fechadas em que os líderes se negam propositalmente a investirem nessa tão sensível área que poderá, futuramente, lhes causar algum prejuízo. Se alguém na terra de Vera Cruz é imediatista é a classe política.
No mais, não acho que restam dúvidas sobre a necessidade urgente de se reformar a nossa educação e, finalmente, superarmos esse modelo escolástico, medieval e limitador que temos hoje. Reforma estrutural e tão urgente que já fora tentada por tão longínquos vultos como Ruy Barbosa.
Crianças e jovens estão cada vez mais ávidos por conhecimento e para demonstrarem suas habilidades e criatividades, mas um sistema em que os assuntos são passado quase que roboticamente, desconexos da realidade, que tem como única utilidade a aprovação em uma prova de vestibular fatalmente irá afastar cada vez mais os alunos das escolas e, talvez, até extinguir a possibilidade de grandes profissionais, empreendedores, cultos e inovadores saírem dos bancos dos liceus.
Concordo que deva haver um direcionamento dado pelo próprio aluno em seus estudos, mas sem fechar a possibilidade de, em um breve futuro, ele mudar de ideia, além de tornar assuntos tão importantes como história, sociologia, filosofia - que em alguns países esses estudos são realmente sérios e densos - serem obrigatórios, mudando, claro, a forma de transmitir e avaliá-los.
Para essa mudança, no entanto, deve-se mudar (quase) tudo: salários dos professores, número de alunos por sala, aplicação prática do conhecimento, modos de incentivo, ensino integral com inclusão de artes e esportes e, para completar a quimera, avaliação individual e progressiva. E para tanto, é imperioso o diálogo com profissionais da classe e com os estudantes, que são os diretamente interessados e afetados, e não de cima para baixo por burocratas partidários em busca de apoio para as próximas eleições.
Outra grande conquista que foi posta em xeque foi a não obrigatoriedade de formação na área em que se irá lecionar, aliás, a nem mesmo obrigatoriedade de curso superior, um retrocesso tamanho que desprestigia os licenciados além de deixar uma grande brecha para que ingerências antirrepublicanas e anti-educacionais virem a regra.
Da forma que foi - ou que se está querendo fazer - uma reforma tão importante e já tardia que tem impacto decisivo no futuro do nosso país, mais dúvidas que certezas são levantadas sobre seu propósito, e, para mim em particular, uma dúvida extra foi plantada: será que, de fato, há um grande gênio do mal com tanto calculismo por trás dessa ideia?