Fonte: MaisPB
Bandas e músicos paraibanos anunciaram nesta terça-feira que farão shows na praia de Tambaú, em janeiro do ano que vem, apesar do cancelamento da programação do projeto Extremo Cultural. Os artistas querem colocar em prática o projeto Extremo Independente, com participação da iniciativa privada. A proposta feita por Erik Martinez (vocalista da banda Macumbia) foi acompanhada por Tamboretes do Forte e DJ Pierre Alexander. Abaixo, a postagem-convite feita pelo músico Erik Martinez:
“Ao invés de reclamar porque não vai haver Extremo Cultural este ano…Eu proponho marcar uma reunião com todas as bandas Pessoenses interessadas e entrar num acordo de datas, som, patrocinios privados e correr pra fazer o nosso primeiro EXTREMO INDEPENDENTE na orla de João Pessoa – PB. Não necessita ser um mega palco e infraestrutura, mas sim fazer no propio Busto, Feirinha de comida, fechar a rua do On the rocks e Carboni…e fazer shows nem que seja num pequeno trio eletrico com boa sonoridade e logicamente respeitando os horários e as normas impostas pela prefeitura. enfim… agora é o momento. E se não der tempo nos juntamos para contratar um trio eletrico pequeno e fazer nosso propio Carnaval, ao invés das muriçocas sermos os Maribondos!!! …Sem cachê nenhum…apenas para mostrar e fazer desfrutar todo tipo de publico com o nosso trabalho musical. Pois esta é uma das safras musicais mais lindas e interessantes que esta ocorrendo e não pode parar por causa de falta de verba”.
O cancelamento do Extremo Cultural foi anunciado pelo prefeito de João Pessoa, Luciano Cartaxo (PSD), na manhã de ontem (07). O projeto, nos últimos 10 anos, foi realizado na praia de Tambaú, sempre no mês de janeiro.
Cartaxo disse que – com a suspensão – pretende economizar cerca de 60 milhões na gestão municipal nos primeiros meses de 2016.
Cartaxo manteve, todavia, a realização da festa de Réveillon nas areias das praias de Tambaú e Cabo Branco, mas com orçamento reduzido.
O prefeito ressaltou que no momento a prioridade da sua gestão é pagar o 13º salário dos servidores municipais, a folha do mês de dezembro e continuar com a realização de obras, sobretudo nas áreas de Saúde, Educação, Infraestrutura e Habitação.
“As previsões para 2016 são piores que as de 2015. Então, para que possamos entregar obras, escolas, praças, habitações, pagar salário de servidores em dia, temos que fazer cortes”, afirmou.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
A velha
Manoel Alencar
Ainda com os resquícios da imponência dos equinos que as inúmeras gerações de cruzamentos desordenados a haviam tirado, a mula andou com passos cansados de uma manhã de trabalho e parou em frente ao pequeno portão que dava acesso ao alpendre. Trazia na cernelha, no dorso e no lombo as marcas mal curadas de anos de selas afiveladas. Ostentava uma crina suja e enrolada de uma maneira impossível de desenrolar. O cheiro forte do seu calor aportou junto com ela na entrada da casa. Abanando as orelhas feridas, levantou o rabo e despejou uma quantidade de fezes no portão, colocando uma massa esverdeada ainda um pouco úmida como obstáculos aos que entrarão e sairão da casa.
A velha ignorou completamente a mula, pelo costume da convivência ou pela incompreensão de sua presença. Estava deitada na rede sendo mal vigiada pelo neto que a alguns metros triturava na máquina os alimentos dos animais. Também ele não se preocupava com sua atenção intermitente, pois o máximo que poderia acontecer era ela se levantar e sair andando para algum lugar, que inevitavelmente seria ou ao interior da casa, onde crianças assistiam à televisão, ou sairia de casa, em um descampado com uma baraúna no meio caminho entre a casa e um abandonado posto de saúde. Em qualquer dos casos, desligaria a máquina e iria trazê-la de volta à sua rede, enquanto sua irmã terminava o almoço.
A despreocupação do neto se respaldava nos últimos anos sem que houvesse qualquer incidente. Não fosse uma vez que se levantou e foi a seu encontro no cocho para perguntar onde estava seu marido, que havia morrido há mais de vinte anos, e outras tantas que saíra ao encontro da baraúna, tendo em todas as vezes seu filho, com maior ou menor relutância, conseguido trazê-la de volta, nenhum outro incidente ocorrera. Afora esses pequenos episódios, passava o dia, as semanas, os meses e os anos sendo colocada pelas pessoas nos lugares que elas queriam, e que quase sempre foi uma alternância entre alguma cadeira, alguma rede, sua cama ou o banheiro.
Sua rede dividia o alpendre com cadeiras de balanço, troncos de árvores que faziam as vezes da bancos, e outras redes. O vento fazia com que tudo balançasse fantasmagoricamente: as redes, as cadeiras, seus cabelos, seu vestido. O alpendre era o lugar mais ventilado não só da casa, mas de tudo o que havia ao seu redor. Não foram poucas as vezes em que achou que alguém estava na rede que há pouco metros da sua balançava sozinha. Ficava muitas vezes na dúvida nas poucas horas do dia que ficava deitada ali. Por vezes gritava a alguém que a escutasse perguntando quem estava do seu lado, sendo sempre ignorada, outras vezes apenas se esquecia da sua preocupação e se calava.
A criança tediosamente assistia sem qualquer importância a algo que era transmitido pela televisão. A luxuosa mesa de jantar, herança de incontáveis gerações, era o último obstáculo entre a sala e o corredor que dava na cozinha, onde um fogão com uma cor que dificilmente poderia ser descrita com poucas palavras sustentava as suas duas únicas chamas na preparação de um arroz branco e um feijão verde. Um fogo de lenha sustentava uma chama viril, vermelha, em que em cima uma caçarola torrava uma galinha de capoeira.
Com um grito que tomou toda a casa, a neta ordenou a reunião da família à mesa para o almoço, imediatamente a máquina de triturar e a televisão foram desligadas, e vaqueiro e criança tomaram seus lugares na mesa.
A velha reparou que alguém a observava junto a rede, e a filha, com um rosto franzido de uma natural repulsa, disse: - Mãe, venha tomar banho pra almoçar. E a velha respondeu de forma áspera: - Banho pra que? Não tô cagada. No que a filha respondeu já levantando a velha: -Tá sim, mãe. A senhora tá cagada.
Levou a velha pelo braço ao banheiro. Passou pela mesa onde todos já esperavam o almoço, atravessando o grande corredor e abriu a porta do banheiro colocando a velha em cima da banheira de cimento. Tirou sua roupa e sua fralda, transformando o rosto em uma careta já acostumada a encarar diariamente aquele odor. Fez da fralda um pacote e a jogou no lixo. Pegou os braços da velha, olhou firmemente nos seus olhos e, falando mais alto que o normal, como se dessa forma a velha tivesse mais chance de entender o que lhe diz, falou: -Vou botar o almoço e volto pra lavar a senhora, não saia daqui. E saiu do banheiro deixando a velha nua, ainda suja em seus excrementos.
Porém, quase que imediatamente depois que porta bateu na parede, a velha saiu do banheiro, abriu a porta, parou por poucos segundos e saiu em direção à cozinha. Lá chegando, passou por trás da neta sem que ela notasse, e quando deu o último passo que divida a cozinha do quintal, a neta saiu com a grande caçarola em direção da mesa. A velha franziu os olhos instintivamente quando os raios quentes do sol atingiram seu rosto, e de maneira mais rápida que seu habitual, saiu em direção à cerca que delimitava a casa. Em um trecho em que o arame farpada havia caído e apenas um poste velho da cerca foi colocado para evitar a fuga dos animais maiores, a velha conseguiu sair. E sem parar, com passos largos e rápidos, saiu em linha reta sem destino. Os galhos, espinhos e gravetos faziam arranhões em seus seios, na sua barriga, nas suas coxas, nos seus braços. Quando começou a ofegar, parou. O sol indiferente continuava a lançar seu calor quase insuportável. Fileiras de sangue começaram a escorrer pelas pequenas chagas no seu corpo. Sentiu sede, resmungou qualquer coisa, deu algumas voltas em si mesma e, novamente, parou. Com grande dificuldade sentou as nádegas nuas no chão quente, coberto de folhas. Por algum motivo ignorava a dor. Alguns insetos já subiam no seu corpo.
O semblante aflito e cansado se transformou subitamente em um misto de surpresa, espanto e alívio, quando a criança para o olhar na velha. Sem saber se gritava para os demais que a tinha encontrado com medo da reação da velha, felinamente se aproximou e parou a poucos centímetros daquele corpo ebúrneo que estava sentado à sua frente. Apesar de ser sua bisavó e de sempre ter dividido a casa com ela, nunca havia a tocado. Observou, já com curiosidade, a frágil figura nua, reparando nas camadas de gordura que se dobravam em todos os lugares de seu corpo. Logo observou os arranhões e os insetos que já passeavam nos ombros, nos cabelos brancos, na barriga e nas pernas. Calculou que seria melhor levar ela mesma a velha de volta à casa. Cautelosamente foi esticando seu braço em direção ao braço da velha, que nenhuma reação esboçou. Já apertando pouco abaixo do seu ombro, foi ajudando a velha ficar de pé, e em seguida a foi guiando de volta pra casa. Em um dado momento, a velha ficou um pouco a sua frente, e a menina observou suas nádegas escoriadas. A cada descoberta do corpo, seu rosto alternava expressões de aflito e curiosidade. Quando os demais observaram que ambas voltavam, exclamações de alívio foram proclamadas. Foram ao encontro da dupla e enrolaram a velha em uma toalha, levando-a de volta para o banheiro.
Em muitos anos, essa foi a maior quantidade de passos dados pela velha sem que alguém a guiasse, e os últimos até o fim de sua vida.
As horas seguintes foram dedicadas ao tratamento dos arranhões. Unguentos nas feridas, pasta d’água nas nádegas assadas, hidratantes baratos em todo o corpo vermelho de insolação. Foi levada para sua cama ainda como cabelo molhado do banho e ostentando uma mistura de aromas nauseante. Foi deitada na cama e enfim a tranquilidade voltou a todos da casa, e também a rotina de sempre, a não ser pela obrigação alternada de cada um ficar as vinte e quatro horas do dia ao seu lado. A contragosto, a cama da menina foi transferida para seu quarto. Quando ia tomar banho sempre alguém ficava à porta do banheiro. A cerca foi consertada.
Assim se passaram os meses e anos seguintes, sempre surgindo uma confusão quando alguém vacilava na tarefa de vigiar diuturnamente a velha. Seu estado também foi se agravando, e passou a ser corriqueiro ela xingar sem qualquer motivo alguém da casa, tendo uma vez proferido todo seu vocabulário desordenado de palavrões à menina que se balançava na cadeira de balanço enquanto a vigiava. Quando isso acontecia, ela sempre parava atenciosamente para tentar aprender cada termo imoral mencionado pela velha para, depois, reproduzir com seus amigos na escola.
Os olhos da velha ficavam a cada dia mais congelados, mais fantasmagóricos, retratando seu definhamento fisiológico. Já quase não tinha qualquer lembrança, mas desde aquele dia, sempre sentia prazer quando sentia o cheiro nauseante da mistura de remédios que passavam no seu corpo.
Ainda com os resquícios da imponência dos equinos que as inúmeras gerações de cruzamentos desordenados a haviam tirado, a mula andou com passos cansados de uma manhã de trabalho e parou em frente ao pequeno portão que dava acesso ao alpendre. Trazia na cernelha, no dorso e no lombo as marcas mal curadas de anos de selas afiveladas. Ostentava uma crina suja e enrolada de uma maneira impossível de desenrolar. O cheiro forte do seu calor aportou junto com ela na entrada da casa. Abanando as orelhas feridas, levantou o rabo e despejou uma quantidade de fezes no portão, colocando uma massa esverdeada ainda um pouco úmida como obstáculos aos que entrarão e sairão da casa.
A velha ignorou completamente a mula, pelo costume da convivência ou pela incompreensão de sua presença. Estava deitada na rede sendo mal vigiada pelo neto que a alguns metros triturava na máquina os alimentos dos animais. Também ele não se preocupava com sua atenção intermitente, pois o máximo que poderia acontecer era ela se levantar e sair andando para algum lugar, que inevitavelmente seria ou ao interior da casa, onde crianças assistiam à televisão, ou sairia de casa, em um descampado com uma baraúna no meio caminho entre a casa e um abandonado posto de saúde. Em qualquer dos casos, desligaria a máquina e iria trazê-la de volta à sua rede, enquanto sua irmã terminava o almoço.
A despreocupação do neto se respaldava nos últimos anos sem que houvesse qualquer incidente. Não fosse uma vez que se levantou e foi a seu encontro no cocho para perguntar onde estava seu marido, que havia morrido há mais de vinte anos, e outras tantas que saíra ao encontro da baraúna, tendo em todas as vezes seu filho, com maior ou menor relutância, conseguido trazê-la de volta, nenhum outro incidente ocorrera. Afora esses pequenos episódios, passava o dia, as semanas, os meses e os anos sendo colocada pelas pessoas nos lugares que elas queriam, e que quase sempre foi uma alternância entre alguma cadeira, alguma rede, sua cama ou o banheiro.
Sua rede dividia o alpendre com cadeiras de balanço, troncos de árvores que faziam as vezes da bancos, e outras redes. O vento fazia com que tudo balançasse fantasmagoricamente: as redes, as cadeiras, seus cabelos, seu vestido. O alpendre era o lugar mais ventilado não só da casa, mas de tudo o que havia ao seu redor. Não foram poucas as vezes em que achou que alguém estava na rede que há pouco metros da sua balançava sozinha. Ficava muitas vezes na dúvida nas poucas horas do dia que ficava deitada ali. Por vezes gritava a alguém que a escutasse perguntando quem estava do seu lado, sendo sempre ignorada, outras vezes apenas se esquecia da sua preocupação e se calava.
A criança tediosamente assistia sem qualquer importância a algo que era transmitido pela televisão. A luxuosa mesa de jantar, herança de incontáveis gerações, era o último obstáculo entre a sala e o corredor que dava na cozinha, onde um fogão com uma cor que dificilmente poderia ser descrita com poucas palavras sustentava as suas duas únicas chamas na preparação de um arroz branco e um feijão verde. Um fogo de lenha sustentava uma chama viril, vermelha, em que em cima uma caçarola torrava uma galinha de capoeira.
Com um grito que tomou toda a casa, a neta ordenou a reunião da família à mesa para o almoço, imediatamente a máquina de triturar e a televisão foram desligadas, e vaqueiro e criança tomaram seus lugares na mesa.
A velha reparou que alguém a observava junto a rede, e a filha, com um rosto franzido de uma natural repulsa, disse: - Mãe, venha tomar banho pra almoçar. E a velha respondeu de forma áspera: - Banho pra que? Não tô cagada. No que a filha respondeu já levantando a velha: -Tá sim, mãe. A senhora tá cagada.
Levou a velha pelo braço ao banheiro. Passou pela mesa onde todos já esperavam o almoço, atravessando o grande corredor e abriu a porta do banheiro colocando a velha em cima da banheira de cimento. Tirou sua roupa e sua fralda, transformando o rosto em uma careta já acostumada a encarar diariamente aquele odor. Fez da fralda um pacote e a jogou no lixo. Pegou os braços da velha, olhou firmemente nos seus olhos e, falando mais alto que o normal, como se dessa forma a velha tivesse mais chance de entender o que lhe diz, falou: -Vou botar o almoço e volto pra lavar a senhora, não saia daqui. E saiu do banheiro deixando a velha nua, ainda suja em seus excrementos.
Porém, quase que imediatamente depois que porta bateu na parede, a velha saiu do banheiro, abriu a porta, parou por poucos segundos e saiu em direção à cozinha. Lá chegando, passou por trás da neta sem que ela notasse, e quando deu o último passo que divida a cozinha do quintal, a neta saiu com a grande caçarola em direção da mesa. A velha franziu os olhos instintivamente quando os raios quentes do sol atingiram seu rosto, e de maneira mais rápida que seu habitual, saiu em direção à cerca que delimitava a casa. Em um trecho em que o arame farpada havia caído e apenas um poste velho da cerca foi colocado para evitar a fuga dos animais maiores, a velha conseguiu sair. E sem parar, com passos largos e rápidos, saiu em linha reta sem destino. Os galhos, espinhos e gravetos faziam arranhões em seus seios, na sua barriga, nas suas coxas, nos seus braços. Quando começou a ofegar, parou. O sol indiferente continuava a lançar seu calor quase insuportável. Fileiras de sangue começaram a escorrer pelas pequenas chagas no seu corpo. Sentiu sede, resmungou qualquer coisa, deu algumas voltas em si mesma e, novamente, parou. Com grande dificuldade sentou as nádegas nuas no chão quente, coberto de folhas. Por algum motivo ignorava a dor. Alguns insetos já subiam no seu corpo.
O semblante aflito e cansado se transformou subitamente em um misto de surpresa, espanto e alívio, quando a criança para o olhar na velha. Sem saber se gritava para os demais que a tinha encontrado com medo da reação da velha, felinamente se aproximou e parou a poucos centímetros daquele corpo ebúrneo que estava sentado à sua frente. Apesar de ser sua bisavó e de sempre ter dividido a casa com ela, nunca havia a tocado. Observou, já com curiosidade, a frágil figura nua, reparando nas camadas de gordura que se dobravam em todos os lugares de seu corpo. Logo observou os arranhões e os insetos que já passeavam nos ombros, nos cabelos brancos, na barriga e nas pernas. Calculou que seria melhor levar ela mesma a velha de volta à casa. Cautelosamente foi esticando seu braço em direção ao braço da velha, que nenhuma reação esboçou. Já apertando pouco abaixo do seu ombro, foi ajudando a velha ficar de pé, e em seguida a foi guiando de volta pra casa. Em um dado momento, a velha ficou um pouco a sua frente, e a menina observou suas nádegas escoriadas. A cada descoberta do corpo, seu rosto alternava expressões de aflito e curiosidade. Quando os demais observaram que ambas voltavam, exclamações de alívio foram proclamadas. Foram ao encontro da dupla e enrolaram a velha em uma toalha, levando-a de volta para o banheiro.
Em muitos anos, essa foi a maior quantidade de passos dados pela velha sem que alguém a guiasse, e os últimos até o fim de sua vida.
As horas seguintes foram dedicadas ao tratamento dos arranhões. Unguentos nas feridas, pasta d’água nas nádegas assadas, hidratantes baratos em todo o corpo vermelho de insolação. Foi levada para sua cama ainda como cabelo molhado do banho e ostentando uma mistura de aromas nauseante. Foi deitada na cama e enfim a tranquilidade voltou a todos da casa, e também a rotina de sempre, a não ser pela obrigação alternada de cada um ficar as vinte e quatro horas do dia ao seu lado. A contragosto, a cama da menina foi transferida para seu quarto. Quando ia tomar banho sempre alguém ficava à porta do banheiro. A cerca foi consertada.
Assim se passaram os meses e anos seguintes, sempre surgindo uma confusão quando alguém vacilava na tarefa de vigiar diuturnamente a velha. Seu estado também foi se agravando, e passou a ser corriqueiro ela xingar sem qualquer motivo alguém da casa, tendo uma vez proferido todo seu vocabulário desordenado de palavrões à menina que se balançava na cadeira de balanço enquanto a vigiava. Quando isso acontecia, ela sempre parava atenciosamente para tentar aprender cada termo imoral mencionado pela velha para, depois, reproduzir com seus amigos na escola.
Os olhos da velha ficavam a cada dia mais congelados, mais fantasmagóricos, retratando seu definhamento fisiológico. Já quase não tinha qualquer lembrança, mas desde aquele dia, sempre sentia prazer quando sentia o cheiro nauseante da mistura de remédios que passavam no seu corpo.
Da Solidão
Manoel Alencar
Dormir embebido em solidão
é mergulhar nu em águas salubres
que te fazem atiçar mais ardores
contrariando a própria razão.
Submerso na fria escuridão,
rodeado de perdas e amores
que me fazem sentir as mesmas dores
que de mim, talvez, nunca sairão.
Perco o meu sono já desgastado,
trazendo de volta o meu cansaço
que me acompanha o dia todo.
Eu percebo, assim, que o passado
sempre permanecerá acordado
sedimentando a vida em lodo.
Dormir embebido em solidão
é mergulhar nu em águas salubres
que te fazem atiçar mais ardores
contrariando a própria razão.
Submerso na fria escuridão,
rodeado de perdas e amores
que me fazem sentir as mesmas dores
que de mim, talvez, nunca sairão.
Perco o meu sono já desgastado,
trazendo de volta o meu cansaço
que me acompanha o dia todo.
Eu percebo, assim, que o passado
sempre permanecerá acordado
sedimentando a vida em lodo.
Natal na Usina
A música autoral paraibana estará em cartaz no Natal na Usina durante todo o mês de dezembro. Serão oito shows com entrada franca, mediante a retirada da senha, 1h antes do início dos shows que começam às 22h. Serão distribuídas 200 senhas.
Fest Aruanda ano X
João Pessoa recebe, de 10 a 16 de dezembro, um importante festival de audiovisual: a décima edição do Fest Aruanda, apoiada pelo Governo do Estado. Esse ano, os filmes serão exibidos na rede Cinépolis, no Manaíra Shopping, enquanto os minicursos “Domésticas no cinema latino-americano” e “Cinema Queer: explorando sexualidades na imagem em movimento” serão ministrados no Espaço Cultural.
Para se inscrever, envie nome completo, profissão, endereço e telefone para o e-mail festaruanda@gmail.com, com o curso desejado no assunto.
Facebook do Fest Aruanda Site do Evento
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
Quem é você?
• Quem é você? •
O que?
Festa à fantasia
Quando?
19 de dezembro de 2015
Onde?
Móbile Café
Quem toca?
Discotecagens com:
Matheus Miranda
Domênica Pinto
Dudu Pinto
+ Microfone aberto
+ Premiação da Meio Poema, Meio Canção para a melhor fantasia
Ingressos?
R$20
Ingressos antecipados (limitados): http:// www.eventick.com.br/ quemevoce2015
- Entrada proibida para menores de 18 anos
*Arte por Igor Tadeu.
O que?
Festa à fantasia
Quando?
19 de dezembro de 2015
Onde?
Móbile Café
Quem toca?
Discotecagens com:
Matheus Miranda
Domênica Pinto
Dudu Pinto
+ Microfone aberto
+ Premiação da Meio Poema, Meio Canção para a melhor fantasia
Ingressos?
R$20
Ingressos antecipados (limitados): http://
- Entrada proibida para menores de 18 anos
*Arte por Igor Tadeu.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Clóvis Júnior e Arte Naif
Há alguns anos minhas raízes nordestinas emergiram à minha epiderme. Isso porque por muito tempo dava atenção quase que exclusiva à música britânica, americana, ou mesmo quando nacional, sem especial interesse pela música nordestina. Mas chega um tempo que o que sempre foi passa a ser, e meu sentimento telúrico falou mais alto. Não posso negar que a poesia foi grande responsável, seguida pela música, o forró pé de serra, que acho simplesmente maravilhoso, até pela delicadeza e sensibilidade que imprimem, contrariando um pouco o sertanejo euclidiano. Ora, o que é ser mais sensível que, diante de todas as dificuldades para suprir as necessidades vitais básicas, que tanto calejam o espírito de um homem, apesar disso, ainda um sertanejo ter a coragem - talvez coragem - de dizer versos do tipo: “ela nem olhou pra mim, passei horas no espelho me arrumando o dia inteiro e ela nem olhou pra mim”, “você bagunçou meu coração, tirou ele do peito e sacudiu pela calçada”, ou ainda o tino de comparar a felicidade com uma burrinha, entre outras.
Sem falar ainda no que, para mim, é a maior das artes, o que prova que um sujeito é verdadeiramente gênio: o repente. Certa vez fui assistir a um concurso de repentistas, e saí de lá muito mais do que impressionado. Nunca havia assistido a um concurso desses, então fiquei lá, quietinho, assistindo... Foi uma experiência um tanto quanto depressiva para alguém que, como eu, ainda arrisca fazer alguns versos. Eu passo, no mínimo, horas para escrever um soneto, com rima e métrica. Os caras faziam de improviso coisas geniais, o sorteio do tema e do estilo de versos eram feitos na hora (martelo agalopado, Galope à beira mar, redondilha, décima, carretilha, etc.). Para se ter uma idéia, o galope à beira mar, por exemplo, tem esquema rímico próprio (ABBAACCDDC), e deve ser obedecido pelo poeta... de improviso.
Pois bem, isso tudo pra dizer que nessa mesma época participei de um evento na cidade de Guarabira, e tive a oportunidade de conhecer o artista guarabirense Clóvis Júnior. Na ocasião, consegui adquirir um livro sobre o seu trabalho. Cheguei em casa fui ver do que se tratava. Sabia que ele era muito conhecido mundo a fora, mas não conhecia seu trabalho. Eis minha surpresa quando vejo que é adepto da chamada Arte Naïf, ou Arte Primitiva Moderna, que é a arte executada por artistas sem formação acadêmica, o que não significa que seja a arte Naïf, em si, uma arte menos complexa, bela,ou de menor qualidade, tendo em vista a necessidade de estudo, pois presume o conhecimento da arte dita acadêmica para o seu “não seguimento”, a sua “não execução”, sendo assim um contraste no proceder artístico.
O que Clóvis Júnior faz com maestria é conjugar esses elementos Naïf com a cultura nordestina de raiz, com grande influência da xilogravura, e feito de uma forma belíssima. Beleza e crítica social. As referências passam pelas feiras, pelas festas, pescarias, religiosidade e costumes do nordeste brasileiro.
Em 1993, Clóvis Júnior participou do 1º Concurso Nacional de Cartazes criado pela ONU, com o tema “As drogas e o nosso futuro”. Logrou a primeira colocação, tendo sido esse trabalho divulgado em todo o Brasil e em vários países da Europa, onde a Arte Naïf é muito valorizada. Além disso, foi condecorado com várias comendas e honrarias no Brasil e no exterior, participando, ainda, de exposições individuais e coletivas em Portugal, Estados Unidos, França, Inglaterra, Argentina, Itália e Alemanha.No mais, deixo para a sensibilidade sertaneja de cada um, o site de Clóvis Dias Júnior. http://www.clovisjunior.com.br/
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